Fé Cega, Faca Amolada
Dia 22 - 29/04/26
Acordei animado às 7 da manhã. Hoje seria o dia de conhecer algo que eu já via em livros de história há mais de quinze anos: o Lago Titicaca, o berço da civilização Inca, onde eles acreditavam que o Sol havia nascido.
Segui meu rumo para a rodoviária para uma viagem curta de La Paz para Copacabana (não a nossa!). Foram umas 3-4 horas de viagem tranquilas. Na verdade, o ônibus não foi suficiente: após chegar em um certo ponto foi necessário pegar uma lancha para cruzar o lago em certo ponto, enquanto nosso ônibus iria de balsa para o outro lado. O dia estava muito bonito e a história solar daquele lugar se fez verdadeira enquanto um belo sol me recebia por ali.
Falando com Samila, que ainda estava por Copacabana quando cheguei, ela me deu a dica de uma pousada que estava que tinha quartos individuais e preço parecido ao de hostels. Depois de umas três semanas de viagem apenas em hostels, achei justo pegar um quarto individual para ter um pouco mais de conforto também. Quando cheguei, encontrei com ela, que também tinha pedido para eu levar um short que ela havia esquecido em La Paz, entreguei para ela e fomos tomar café da manhã juntos num lugar que ela tinha gostado, já que estava ali há um dia. Tomamos nosso café e ela me contou sobre tudo da cidade, que não tinha uma grande variedade de coisas para ver, mas tínhamos um interesse em comum: subir a colina famosa, o Cerro Calvário, que oferecia uma bela vista panorâmica do povoado. Combinamos de fazer isso um pouco antes do pôr do sol.
Andamos um pouco mas pela cidade e paramos em um banquinho no que parecia exatamente como uma praia. Areia e uma vastidão de água que poderia muito bem ser um oceano. O Titicaca afinal é o maior lago da América do Sul. Ali, Samila me ensinou alguns jogos de carta que viriam a ser muito úteis para passar o tempo nos dias seguintes de viagem. No primeiro, Shithead, ganhei dela nas primeiras tres vezes que jogamos e então ela decidiu me ensinar outro para talvez melhorar sua sorte. No segundo, Kabu, as regras dos dois jogos começaram a se misturar e aí ela que começou a ganhar de mim várias vezes em sequência.
Passamos um bom tempo jogando e depois ela quis me mostrar um lugar que tinha ido no dia anterior. Depois de subir algumas ruas, chegamos ao que parecia uma propriedade privada de algum hotel. Só sei que tinha uma vista muito boa em um gramado que parecia um deck suspenso para a cidade. Mais que isso, duas alpacas muito simpáticas nos fizeram companhia enquanto passávamos tempo conversando até dar a hora que combinamos para subir o Cerro. Antes de subirmos, passamos no hostel para pegar casacos para o frio que se aproximava. Até o momento, estava apenas de camisa, short e pela primeira vez na viagem, de havaianas. Realmente uma cidade com clima muito bom, depois de muitas frias. Pegamos nossos casacos, pegamos os copos do quarto de nossa pousada, já que iríamos comprar um vinho para tomar ao chegar ao topo.
Outro amigo nosso, Gabriel, tinha estado em Copacabana um pouco antes de nós e tentou também subir o Cerro, mas pegou a trilha errada, até com algumas partes que envolviam escaladas e nos avisou para não pegarmos esse caminho já que ele não conseguiu chegar ao topo pela dificuldade da trilha. Ficamos com isso em mente e fomos olhando o caminho pelo Google maps. Passamos pelo que parecia uma entrada de trilha bem suspeita e pensamos “deve ser essa que o Gabriel pegou, vamos continuar procurando a próxima entrada.” No final das contas achamos a entrada. Estávamos a 4000m de altitude então a menor das escadas já tira seu fôlego bem rápido. A entrada para essa trilha não era uma dessas - era uma escada considerável com degraus irregulares e enormes, do tipo que te faz apoiar no joelho para subir. Ao final dessa subida inicial já estavamos cansados, mas seguimos. A parte seguinte afinal parecia plana e de fato foi por um bom tempo. Parecíamos estar contornando o cerro em vez de subí-lo. Seguimos quais é mais até que para a nossa surpresa o caminho começou a descer, e não a subir como esperávamos. Lembro de Samila falando que esse caminho parecia uma paisagem de conto de fadas por ser bem florido e remoto. Depois de andar bastante e descer mais do que esperado, encontramos uma área com casa de alguns locais e vimos algumas cholitas conversamos. Perguntei se esse era o caminho para subir ao topo do Cerro e elas disseram que sim e indicaram o caminho. Parecia finalmente que começaríamos a subir. O topo parecia muito distante e muito alto acima de nós a esse ponto. Confiamos em nossas amigas e seguimos. A trilha era estreita e parecia ser usada apenas por locais. De fato, foram todos que encontramos nesse caminho. Um boliviano queimando alguma coisa por ali. A inclinação aumentava cada vez mais e precisamos de algumas pausas para acalmar os batimentos e a respiração. Continuamos subindo e subindo. A trilha começava a desaparecer em alguns momentos e então eu precisava ir mais à frente para várias direções para ver se ela aparecia novamente. A esse ponto, o sol já começava a se pôr e já aceitamos que perderíamos o pôr do sol, que na verdade tinha muitas nuvens, ou seja, nem seria muito definido. Isso se repetiu muitas vezes: subíamos um pouco, a trilha sumia, parávamos para descansar. A esse ponto, já tínhamos percebido que estávamos na trilha errada, ou melhor: não sabíamos se estávamos mais em uma trilha. Foram momentos de incerteza que claro, foram amplificados por uma aranha aparecendo e Samila soltando um grito que me deu um susto que quase desmaio, além de todas as dificuldades.
Cada vez mais, dentro de mim crescia uma fé cega que iríamos chegar, de uma forma ou de outra. Daríamos um jeito nas incertezas e subiríamos ao topo. Em certo momento, já havíamos subido bastante e o topo do cerro já parecia bem próximo, como uns 50 metros acima. Era para ser uma boa notícia, mas percebi que esses metros finais eram praticamente uma parede. A inclinação não nos permitia mais apenas subir andando. Foi o pico da dificuldade, mas seguimos acreditando e vencendo rochas enormes e soltas, muitas vezes tendo que escalar, já que dar passos não era mais possível. Mais ou menos nesse ponto, perdemos a trilha de novo. Dessa vez foi pior. Olhei várias vezes em volta e não achava por nada. Depois de descansar um pouco, lancei mini expedições em várias direcoes para achar um caminho, dessa vez, mais longas que as anteriores, já que não tinha ideia nem ao menos da direção do caminho. A vegetação já era muit mais alta nesse ponto, o que dificultava ter até mesmo uma noção de direção geral que seguir. Depois de muito subir por todos os lados, pedras e pedras, consegui achar algo que parecia levemente um caminho atrás de uma pedra enorme e chamei Samila. Não tinha certeza que era o caminho certo, mas tinha que tentar. Após percorrer esse “caminho” por alguns minutos, avistamos uma pessoa no topo e foi aí que tive certeza que realmente conseguiríamos. Andamos mais um pouco e não conseguíamos acreditar em nossos olhos quando vimos a vista da cidade, já no escuro. Fomos descobrir depois conversando com algumas pessoas lá em cima, que havia uma escada em que se subia em 15 minutos. Levamos quase uma hora e meia numa inclinação enorme e sem ter certeza de que aquilo era realmente uma trilha! No entanto, nem chegamos a ficar chateados já que chegamos bem! Além disso, ainda descobrimos um caminho para descer bem mais fácil que o da ida. Conseguimos pegar o finalzinho do pôr do sol, com a luz difusa pelas nuvens. Aliás, esse pôr do sol, foi uma bela metáfora para o dia: não foi o pôr do sol super definido que esperávamos mas sua luz difusa deu um outro sabor a ele, muito como nossa trilha, que foi longe do ideal e muito mais desafiadora que esperávamos, mas por isso mesmo foi bela e certamente deixou nossa vista ainda mais recompensadora do que para as pessoas que subiram pelo jeito mais fácil. Os caminhos inesperados têm que ser muit valorizados - as vezes não são o que esperamos, mas vão nos fazer conhecer perspectivas muito diferentes e até aprender sobre nós mesmos. Eu com certeza nunca esquecerei desse pôr do sol!
Link das fotos:https://drive.google.com/drive/folders/1JkUi5lFXIDkneYrz8RE88jB85FV2sCyW?usp=sharing

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Fé Cega, Faca Amolada
Beto Guedes, Milton Nascimento