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TRAVESSIA
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DIA 20 DE 135·La Paz, Bolivia·9 de maio de 2026·

Highway to hell

☀️18°C
↑ 2360m
2704km do Rio
💧 45%

Dia 20 - 27/04/26

O tão aguardado dia chegou. Dia de Ruta de la Muerte. Debati muito internamente se devia fazê-la, afinal é um risco e ela se chama assim por um motivo: muitas pessoas já morreram aqui na época em que carros e ônibus eram permitidos. No entanto, já tinha me arrependido por não ter feito a mina em Potosí e ter perdido a chance de conhecer mais da história do lugar de perto e não queria desperdiçar mais uma vez. Parafraseando o escalador Alex Honnold: se não nos colocamos frente a com o medo real e risco pela segurança física de tempos em tempo, nosssa cabeça começa a criar medos de coisas banais da vida, onde não há justificativa para isso. Quis fazer esse teste, quis encarar esse medo de frente tanto para provar para mim mesmo que eu conseguia quanto para ter a chance de viver algo extraordinário, que muitas vezes se esconde atrás do medo, seja ele qual for, de falhar, de cair, de decepcionar. Com isso em mente, reservei o passeio assim que cheguei em La Paz para não me dar a chance de pensar duas vezes. Como pular de uma altura em uma piscina ou no mar, se você olha para trás, repensa e acaba não fazendo. O dia chegou e começou cedo, por volta das 4 da manhã. Primeiro tivemos que pegar uma van até uma altidude de 4700m. Nesse dia estavam eu, Ajay e o outro Gabriel para essa aventura. Quando chegamos ao ponto mais alto, tomamos um café da manhã básico e os guias começaram a explicar como seria a descida. Primeiro, um trecho de asfalto de uns vinte e poucos quilômetros descendo que deveria nos tomar uns quarenta minutos em uma estrada razoavelmente boa e depois de fato a estrada da morte, um caminho estreito de pedras soltas com um abismo há dois metros ou menos de você a todo momento. A primeira coisa que fizemos foi colocar todo o equipamento fornecido pela agência. Cotoveleira, joelheira, luvas, capacete e uma jaqueta e uma calça por cima da roupa que já estávamos vestindo. Além disso, a hora mais complicada emocionalmente: assinar um termo de responsabilidade onde reconhecíamos ser os únicos responsáveis pelo que pudesse acontecer, dado que a descida envolvia riscos. Nessa hora eu confesso que pensei duas vezes de certa forma, mas não ia voltar atrás da minha decisão, assinei e torci pelo melhor. Ainda houve um momento de confusão já que havíamos pedido bibicletas de suspensão dupla e nos foram entregues bicicletas de suspensão simples, que deixariam a descida ainda mais desconfortável. Tentamos tudo que pudemos para fazer os guias da agência que havia ocorrido um erro, mas não adiantou. Acontece. Ajustamos nossas novas bicicletas e nos preparamos para a descida. Todos alinhados na borda da pista, começamos a descer um por um.

Quando a bicileta começou a ganhar velocidade e as curvas na montanha começaram, percebi mais uma vez que agora era real e que precisava me concentrar bastante para fazer dar certo. Como a altitude era grande no primeiro momento e era cedo pela manhã, o frio castigou e agradeci por estar de luvas, do contrário, com o vento meus dedos estaram congelando. Não só o vento, mas nesa parte pegamos chuva e também em alguns momento entramos por completo da neblina da montanha. Por causa disso em alguns momentos só era possível ver 20 metros à frente. Tentei manter uma distância sempre para a bicileta da frente e fui me acostumando. Essa foi a parte em que mais pegamos velocidade e fizemos uns vinte e poucos quilômetros em uns quarenta minutos. Além disso, os guias paravam no acostamento da estrada de tempos em tempos para reagrupar as pessoas e garantir que ninguém ficou para trás. Numa dessas paradas, um dos guias nos falou que conseguiu bicletas de duas suspensões para mim e meu amigo. Foi só questão de aguardar o carro de suporte que vinha sempre atrás trazê-las para nós. Agora sim, tudo certo para o resto da descida. No segundo subtrecho dessa primeira parte o guia avisou que a estrada ficaria pior e cheia de buracos. No primeiro momento pareceu igual, mas logo eles apareceram: os remendos no asfalto que parecem adicionar pouca altura na pista, mas quando se desce em velocidade eles lançam a bicicleta para cima. Nesse momento, minha maior preocupação era garantir que eu estava segurando o guidão muito bem, firme, para que não escapasse da minha mão num desses. Mesmo com tudo isso, as paisagens faziam tudo valer a pena. Parecia que esávamos descendo um vale mágico envolto em neblina.Ao fechar a primeira parte da descida, já mais acostumado com a adrenalina, com o vento e o frio, paramos para um breve café da manhã. Nos deram um pão com ovo, uma banana e um chocolate e uma coca cola. Abastecidos, fomos agora sim para a temida estrada da morte. Agora, não havia mais estrada, apenas um caminho que parecia ter sido improvisado na face da montanha. A estrada mais perigosa do mundo que ia das proximidades de La Paz até o Brasil, segundo nosso guia. Já dava para ver pelo terreno de onde paramos para tomar o café que seria uma descida difícil. Muitas pedras grandes e soltas, terra e uma chiva fina começava a cair. O guia nos disse que a estrada estava em condições bem piores do que as normais por causa de chuvas recentes que haviam revirado tudo. Esse foi o momento onde mais pensei que só podia haver uma coisa em minha cabeça: fazer de tudo para não cair. Meu foco precisaria ser total. Começamos a descida e logo de cara a bicicleta já começou a tremer. A quantidade de cascalho e pedras fazia ela sacolejar o tempo todo e de cara já senti as ondas de choque subindo pelo meu punho e braço. De qulquer forma, não importava, eu tinha que segurar o guidão como se minha vida dependesse disso porque realmente dependia. Claro, tive que dar aquela olhada para baixo para checar se era de fato alto como diziam e realmente, o abismo era tamanho que não se conseguia ver o fundo. Tudo em mata, terra e pedras. Estranhamente nesse momento não me sentia tenso nem nervoso. Curiosamente, nos dias antes e especialmente nos momentos antes da descida começar eu estava com medo e preocupado, mas uma vez que eu eu estava de fato ali, só eu e minha bicicleta percorrendo o caminho, todos esses pensamentos foram expulsos da minha mente e senti meu foco muito afiado e também confiança nas minhas habilidades com a bicicleta. Com isso a descida foi fluindo bem e quanto mais eu descia, mais confiante eu ficava. Sempre que meus pensamentos involuntariamente fugiam para um lugar de pensamentos aleatórios ou de "e se eu cair, escorregar, etc" eu deixava eles passar e trazia minha mente de volta ao repouso do foco. Sem demorar muito, já me sentia completamente acostumado à descida e já entendia o terreno o suficiente para saber quando a bicicleta sairía de traseira, que era um dos maiores desafios. A imprevisibilidade do movimento das pedras debaixo do pneu e como ele reagiria a isso foram aspectos que fui entendendo melhor com o tempo de descida. Os cenários da descida eram uma coisa incrível. Tem algo de uma sensação de liberdade indescritível de você traçar um caminho que ao longe parece um mero risco na face da montanha sozinho com seus pensamentos a todo momento. Claro, paramos para fotos em cachoeiras incríveis, ou quando todo o grupo sentou na beira do precipício ou erguia suas bicicletas acima da cabeça como quem conquistou o abismo. Passamos por seções em que a estrada tinha apenas 2 metros de largura. 2 metros separando vida e morte. Mais uma vez quando fizemos essa seção senti uma sensação de muita calma mesmo sabendo que levava minha vida na minhas mãos, como se carregasse um objeto muito frágil em meio a uma tempestade. Fiquei surpreso com o quão bem eu consegui lidar com esse tipo de pressão que nunca tinha experienciado. A última parte do caminho contava com vários deslizamento onde pedras gigantes haviam se soltado, deixando a pista um pouco mais difícil ainda de ser navegada, mas a esse ponto, algumas horas a dentro da descida, já estava numa zona de concetração tão profunda que nada me abalaria. Para finalizar, no trecho final, o terreno mudou e ficou todo de lama, o que mudava um pouco as condições já que enquanto as pedras eram difíceis de navegar e imprevisíveis, a lama era super escorregadia, mas depois de algumas quase saídas de traseiras, consegui controlar melhor a bicicleta também nesse tipo de terreno e mantendo o equilíbrio. No final, tudo deu certo e eu só conseguir ser grato à minha calma e foco e pela minha decisão de ter feito essa aventura. Baixamos de 4700m para 1200m de altitude e foi sem dúvida uma das melhores coisas que eu fiz na viagem junto com o Salar do Uyuni, mas de um jeito diferente, onde eu era o ator principal e não só consumia o espetáculo. Foi um teste e tanto em que aprendi muito sobre mim e sobre a minha capacidade de alcançar objetivos mesmo com medo. Ao todo, mais de 65km de descida e punhos e braços (e bunda) arrebentados (da metade para frente, já doiam, no terço final já estava num nível de não conseguir aguentar muito mais, mas meu objetivo era simples: não largar o guidão por nada). Depois que tudo acabou, tiramos toda a roupa de proteção, todas enxarcadas de lama e enquanto os guias recolhiam e limpavam elas e as bicicletas, fomos tomar a cerveja da vitória, já todos relaxados e depois fomos levados a um buffet para o almoço num restaurante que tinha até mesmo uma piscina, que no entanto, nem cheguei a entrar. Só tive energias para comer e depois deitei em uma espreguiçadeira e tirei uma soneca até a hora de ir embora, que deve ser sido ali pelas 4 da tarde, afinal ainda teríamos um longo caminho de volta até o hostel, onde chegamos depois das 20h. Esse foi sem dúvida nenhuma um dos dias mais memoráveis da viagem e da vida!Link das fotos:https://drive.google.com/drive/folders/1-9-luG3lDyLyFKVd9ORwtU0r_LHNupP0?usp=drive_link

Dados do dia

Intensidade
10/10
Energia
70%
Tom emocional
Leve
Sono
7h

Trilha deste dia

Highway to Hell

AC/DC

Spotify
1713 palavras

Conversas

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← AnteriorTudo se pode comprar e dia de cholitas Dia 19 - 26/04/26 Depois de um ônibus noturno e uma festa eu claramente estava bastante cansado, mas por sorte, esse dia seria mais tranquilo, mas ainda assim com pouco sono. Depois de dormir lá para as cinco da manhã no dia anterior, acordei às nove para explorar mais La Paz. Os planos do dia eram conhecer a maior feira ao ar livre da América Latina e pela tarde assistir à Luta livre de Cholitas, recomendada por muitas pessoas pelo caminho. Primeiro de tudo, nesse dia especialemente, precisava começar a jornada com um café. Samila não acordou, então Ajay e eu tratamos logo de conseguir um bom café para dar aquela energia extra para os planos. A feira, era na parte alta da cidade, então pegamos o teleférico e fizemos uma subida ingreme até a parte da cidade chamada de El Alto, que é como se fosse uma área metropolitana, mais afastada do centro. Ao chegar lá, de fato, vimos algo impressionante: uma multidão de barracas coloridas que não parecida ter fim. Logo entramos e começamos a explorar. A quantidade de estímulo visual foi o primeiro aspecto que me imopressionou. Muitas coisas coloridas, muita gente passando, muitos vendedores tentando nos...