A sombra da história ainda paira
Dia 13 e 14 - Final de 20/04/26 e 21/04/26
Na verdade, o dia começa um pouco antes, ainda no dia 20. Contei para vocês toda a história até o Salar do Uyuni e a sua beleza mágica. No mesmo dia, aproximadamente umas 15h, peguei o ônibus para o próximo destino: Potosí.
Após uma viagem de umas três ou quatro horas, percebi que ia chegando ao destino a medida que subiamos mais e mais montanhas. Potosí é, além de muito histórica, a cidade mais alta do mundo a 4000m de altitude. Ao chegar à cidade, talvez pelo tamanho da cidade e da sensação de cidade grande (mesmo que tenha apenas 200 mil habitantes) em contraste com as atrações naturais e cidades que pareciam mais vilarejos do que qualquer coisa que estava visitando desde o início da viagem, ou talvez pela sua história sanguinária, comecei a me sentir um pouco tenso, chegando à noite, sem saber muito como fazer para chegar da rodoviária até o hostel.É engraçado como em alguns momentos algumas decisões ou atitudes mudam toda a história. Quando desci do ônibus para seguir para o hostel e um pouco nervoso com o caos da cidade e a incerteza do que seria dos próximos dias, decidi perguntar se alguém daquele ônibus também iria para o mesmo hostel que eu na esperança de resolver esse problema e ir junto outros viajantes, já que notei que no ônibus havia muitos. Qual seria a chance de mais alguém estar justamente hospedado no mesmo hostel que eu? Comecei a minha busca por duas pessoas que já havia visto antes no Salar do Uyuni, mesmo não tendo tido contato com eles e perguntei: "vocês por acaso estão indo para o hostel Casa Blanca?". Para a minha surpresa a resposta foi um entusiástico "SIM!". Parecia que os dois também não estavam super certos do caminho e poderiam usufruir da companhia, assim como eu. Decidimos ir juntos e já que o uber não funcionava, decidimos tentar pegar um táxi. Andamos um certo pedaço para fora da rodoviária e achamos um taxi bem antigo que decidiu parar para a gente. Para a nossa surpresa, o taxi deu apenas 10 bolivianos para cada um, o que dá mais ou menos 6 reais!Conhecendo mais meus novos amigos na viagem de táxi, descobri mais sobre seus nomes e nacionalidades. O amigo, Ajay, é um australiano indiano e a amiga, Samila, uma dinamarquesa bósnia. Chegamos exaustos no hostel após um trânsito que deixaria São Paulo com inveja. As ruas de Potosí são extremamente estreitas e aparentemente existia uma procissão acontecendo no mesmo dia que fechava ainda mais o trânsito. Saltamos e andamos o trecho final onde o carro ficou parado por um bom tempo. O dia tinha sido bem longo, porque lembre: esse foi o mesmo dia que saímos às 4h da manhã para fazer o Salar do Uyuni e ainda pegamos um ônibus intermunicipal. Todos estavam exaustos. Poderíamos parar por ali, cumprimos o objetivo de chegar ao hostel, mas nem tudo é sobre cumprir objetivos e metas! Decidimos continuar juntos para aproveitar um pouco mais de Potosí e fomos sair para comer. Encontramos uma barraquinha que vendia um sanduíche de milanesa de frango (muito comum por aqui) e batatas. Eu sei que a fome é o melhor tempero, mas foi uma refeição surpreendetemente boa, especialmente pelo molho temperado que a barraquinha oferecia. Foi nesse momento também que percebmos o quão barata a Bolívia é: um sanduíche por 6 reais e um suco natural feito na hora por 3 reais! Nessa mesma noite, conversando sobre nossos roteiros além de outras coisas eles me chamaram para continuar com eles nas próximas cidades, que seriam as mesmas que as do meu roteiro, porém com uma diferença de um dia. Eles ficariam mais dois dias em Potosí, e eu, apenas um. Depois pensar sobre e ouvir deles que eu estava pensando demais, decidi estender minha estadia para também ficar um dia a mais em Potosí e dessa forma seguir com eles pelas próximas cidades. Hoje, olhando para trás, eu vejo que foi uma das melhores decisões que eu tomei nessa viagem porque criamos uma amizade muito boa nos dias seguintes. No dia seguinte, já mais descansado, mas ainda cansado, fomos de fato conhecer a cidade. Aqui vale uma breve consideração do porque eu queria tanto conhecer Potosí: eu queria muito conhecer essa cidade porque ela foi um marco histórico na exploração colonialista da Europa na América do Sul. Suas minas de prata de Cerro Rico atraíram a ganância dos espanhóis desde o início dos anos 1500. Por isso, precisava vê-la de perto: pode-se chamar de uma curiosidade triste pelo que aconteceu ao mesmo tempo em que tentava entender quais os efeitos na cidade de hoje. A montanha de Cerro Rico alimentou o desenvolvimento da Espanha por três séculos enquanto deixou apenas destruição em Potosí. Além da riqueza não ficar na cidade, ou ficar na mão dos empresários das minas, não do povo, essa mina de prata tomou a vida de mais de 8 milhões de trabalahdores, a maioria indígenas escravizados. Uma montanha. 8 milhões de vidas. Hoje ela ainda funciona, mas não mais com prata, mas com estanho e outros mineriais. Essa foi completamente exaurida de todas as mais de cinco mil bocas abertas para a exploração. Para mim, se qualquer coisa, isso ensina que a América Latina nunca teve a possibilidade de desenvolvimento como outros países porque o colonialismo tomou tudo de nós, acabou com as tradições antigas, matou milhões de indígenas seja por doenças trazidas ou por escravização. Então, hoje, é fácil dizer que os países da América Latina são subdesenvolvidos, mas nunca nos foi dada a chance do contrário. Toda a nossa riqueza alimentou o desenvolvimento da Europa, que hoje por muito ainda é considerada o centro da civilidade, mas que na verdade cometeu algumas das maiores atrocidades da história da humanidade.Voltando ao roteiro, eu queria conhecer as minas por dentro, mas no final, acabei não me sentindo confortável para isso. Talvez pela altitude grande e que dentro da montanha aumentava ainda mais, talvez pela quantidade de pó que fica dentro das minas dificultando a respiração, talvez pelos corredores extremamente estreito. Essa cidade parecia ter uma sombra sobre ela que nucna me deixava confortável. Acabei não fazendo a mina no final das contas, mas meus amigos fizeram. Eles contaram que lá dentro, explodem dinamites para novas extrações, os mineiros veneram um deus diabo chamado "El Tío" e dão álcool 96% e cigarros para ele. Faz muito sentido, esses trabalhadores foram abandonados e parecem apenas seguir a história mineradora da cidade, com condições de trabalho terríveis. Fiquei um pouco triste por não ter conseguido conhecer essa realidade mais de perto, mas ao mesmo tempo, acho que seria arriscado entrar com essas condições e acabei tirando o dia para dar uma descansada necessária depois do dia anterior ser tão pesado. Pela manhã, no entanto, conhecemos uma das igrejas mais antigas da cidade, com um campanário que dava vista para toda a cidade, que é divida na parte espanhola, nobre, com seu próprio cemitério e na parte indígena, muito mais humilde, periférica e perto das minas. Essa parte foi bem legal na verdade, porque um guia nos explicou muito sobre a história da cidade e como por exemplo ela foi uma das mais ricas do mundo no século 17. Potosí era o centro do mundo por tanta riqueza fluir dela nesse período. Sua população era maior do que Paris e Londres.Para fechar o dia, saímos para comer alguma coisa. Não havia tanta oferta assim de comidas diferentes e acabamos comendo o mesmo sanduíche do dia anterior, que estava muito gostoso e no final saímos para uma cerveja, onde tomamos a Potosina, cerveja local pela primeira vez enquanto compartilhávamos histórias e eu acabei como tradutor oficial do grupo mesmo com um espanhol bem básico!
Link das fotos:Dia 20/04/26:
https://drive.google.com/drive/u/0/folders/1fcoYHFj5d_XVhvZ6Cfe7BX0WCpAL7wn2
Dia 21/04/26:
https://drive.google.com/drive/u/0/folders/1gOSsLK6jTOAcO4g93-KFXWjrhKGEhalw
Dados do dia
Trilha deste dia
Cariñito
Los Hijos del Sol