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TRAVESSIA
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DIA 104 DE 135·Managua, Nicaragua·23 de julho de 2026·🌙·

Beleza no simples

☁️29°C
↑ 99m
6099km do Rio
💧 67%

Aviso: Galera, retomando os posts por aqui. Enquanto muitos ficaram para trás vou tentar ir atualizando o dia a dia contando a partir de anteontem (dia 20/07). Também pretendo escrever mais dos posts retroativos mas não prometo nada porque são muitos, mas uma hora sai. Vou por hora fazer também sem os links do drive de fotos para subir mais posts, mas continuem acompanhando as fotos pelo insta.


Com isso resolvido, vamos seguir.

20/07/26

Dia de deixar a ilha de Ometepe. Apesar de sentir que poderia tê-la conhecido ainda mais a fundo, gostei muito do tempo que passei ali (e até mesmo estendi o tempo que pretendia ficar). Era hora de dizer adeus também porque os ônibus de Managua para Honduras são apenas uma linha que sai apenas terças, quintas e sábados cedinho pela manhã. Como hoje é segunda, precisei voltar.

Para voltar, perguntei para duas pessoas que trabalhavam no hostel qual ônibus pegar e seu horário. As duas me confirmaram o mesmo horário, duas da tarde passa um ônibus que te leva direto para o Porto. Fui para a rua esperar o ônibus uma meia hora antes da hora que eles me disseram justamente porque na Nicarágua é tudo no boca a boca, não existe muito um horário cumprido a risca e como esse seria o único ônibus do dia, não queria perder. Estava lá eu esperando por uma boa meia hora quando uma senhora passando me disse que hoje era feriado e que não haveria ônibus. Ainda bem que alguém me disse, senão estaria esperando lá até agora!

Pensei um pouco nas opções e como disse, precisaria sair da ilha hoje já que amanhã o único ônibus seria bem cedo. Como os meios de transporte na ilha são muito limitados, podia pegar um quadriciclo, pelo qual o cara alugando queria me cobrar CINQUENTA dólares, ou pegar um táxi. Optei pelo táxi, opção bem mais barata, mas mesmo assim muito mais cara que o ônibus. No entanto, esperei um pouco para tentar achar gente para compartilhar o táxi e consegui. Uma família apareceu e assim o preço acabou ficando bem mais razoável e daí parti para o Porto após esse breve imprevisto, que a essa altura já é o esperado quando se viaja tão leve assim, sem muitas preocupações de planejar cada detalhe.

Comprei meu bilhete, peguei a barca, que dura mais ou menos uma hora e embarcamos eu, carros, motos, vans, bagagens, no ferry com destino a San Jorge. Chegando ao destino, por sorte havia um camarada gritando Managua, Managua e logo tratei de aproveitar a chance e entrar nesse que é um ônibus escolar americano daqueles clássicos de filme.

Agora a parte mais legal e inesperada:

Hoje vi um dos pores do sol mais bonitos da minha vida. De dentro de um ônibus escolar. Janelas abertas, vento no cabelo. Foi uma explosão de rosas, laranjas, azuis e cinzas que não me lembro de ter visto igual. Não só isso, o padrão de nuvens no céu, meio esparso e variado, ajudou a dar uma impressão de profundidade muito rara, como se eu estivesse vendo mil pores do sol condensados em um, cada um acrescentando uma nova camada de de formas e luzes, como ver os diferentes estágios do pôr do sol congelados no tempo. Tudo isso de um ônibus escolar indo de San Jorge a Managua. É quase irônico que esse tipo de coisa aconteça nessa situação completamente banal do dia a dia, quando muitas vezes, especialmente nessa viagem, fiz trilhas, escalei montanhas, andei, andei e andei pela recompensa de ver um lindo pôr sol (que por sinal muitas vezes acabaram frustadas). No caminho, aprendi a gostar de pores do sol mesmo com céus nublados, as nuvens muitas vezes refletem a luz de um jeito que um entardecer perfeito não conseguiria proporcionar. Talvez, essa seja uma nova lição que vai além disso, coisas incríveis podem acontecer no simples, no cotidiano. Procurar e se esforçar para encontrar o extraordinário é importante e louvável, mas também, é preciso aceitar e saber reconhecer quando o que a gente quer está bem à frente dos nossos olhos e valorizar o momento do encontro.

Voltando aos acontecimentos do dia, por acaso uma das amizades que eu fiz lá na Bolívia, um suíço chamado Martino, me mandou mensagem perguntando se eu iria à Nicarágua uns dias antes. Como tinha entendido que ele estava trabalhando em um hostel nessa conversa, perguntei em qual ele estava ficando porque precisaria passar a noite em Managua para sair cedo no dia seguinte rumo a Honduras. Ele me esclareceu na verdade que estava em uma casa com mais um amigo, não um hostel e me ofereceu para passar a noite por lá. Aceitei de bom grado essa coincidência e fui ver detalhes como endereço e tudo, mas aparentemente por lá em Managua, não há endereços muito definidos e ele me passou um ponto de referência e seu WhatsApp.

O ônibus escolar que havia pegado finalmente “chegou”, ou seja, desci num ponto da estrada que julguei ser o mais próximo do ponto referência da casa do Martino. Daí, foi tentar encontrar algum lugar para me informar sobre táxis já que não havia mais ônibus. Encontrei um posto de gasolina e o segurança do posto gentilmente me ajudou a procurar dentre dois táxis que estavam abastecendo. Com um deles, o taxista me pediu 200 cordobas, mas eu tinha apenas 120 na carteira. Meu último dinheiro. Ele baixou para 150 mas falei que só tinha literalmente 120 comigo. Sem dinheiro, sem internet, esperando pelo melhor! Finalmente, ele aceitou me levar pelos 120 para minha sorte! As dificuldades não pararam por aí todavia: como não tinha internet, não conseguia me comunicar com meu amigo para avisar que havia chegado e não sabia em qual casa ele estava. Mais uma vez lá fui eu pedir um favor pro taxista: perguntei se ele podia ligar para meu amigo só para avisar que eu havia chegado (já estava planejando fazer isso quando chegasse, seria o único jeito de encontrar o endereço certo). O que deixou as coisas ainda mais interessantes é que para meu azar o telefone do taxista estava com a tela quebrada, morta, justamente na parte do teclado! Ou seja, ele não podia digitar o número do meu amigo para ligar. Pensei: “nao vai ter jeito, vou precisar tentar encontrar essa casa chamando na rua” mas até para isso ia ser difícil, porque eu não lembrava qual era o nome desse amigo, que tinha conhecido há quase três meses atrás, então não saberia nem pelo que chamar! Se eu dei um pouquinho de sorte, foi que o taxista tinha internet no celular e aí ficou claro como o dia: compartilha a internet comigo só para eu ligar para meu amigo. Pronto, deu tudo certo e meu amigo saiu na rua para mostrar onde era a casa. Quando cheguei, tinha uma cama prontinha para mim e um banheiro para tomar um banho! Poucas coisas alegram o coração do viajante quanto ser bem recebido assim. Não satisfeito, quando saí do banho o amigo ainda esquentou um macarrão para mim, que foi a maior felicidade do dia já que não tinha conseguido comer nada o dia todo. Ficamos eu , meu amigo e o amigo dele batendo papo e contando histórias sobre as nossas viagens até umas onze da noite. A cereja do bolo foi que ainda esse amigo me emprestou um dinheiro para eu pegar um Uber no dia seguinte, já que teria que sair três e meia da manhã e não haveria ônibus e aqui só se aceita dinheiro para tudo. Fechei o dia ainda mais certo de que tenho aprendido muito nessa viagem e que foi um dia muito bem sucedido de resolução de problemas que apareceram em diversos momentos e de aprender a estar bem com as incertezas de uma viagem assim.

Dados do dia

Intensidade
5/10
Energia
80%
Tom emocional
Leve
Sono
9h

Trilha deste dia

Pink + White

Frank Ocean

Spotify
1328 palavras

Conversas

Carregando...

← AnteriorUm Rolling Stone Com Ocasionais Pensamentos AleatóriosDia 24 - 01/05/26 Segundo dia na ilha do sol e hoje o dia promete: vamos fazer uma trilha que dá a volta em toda a Isla Del Sol. Depois de ter ficado perdido na trilha de subida da colina em Copacabana, dessa vez baixei o app All Trails que dá acesso sem internet a trilhas pelo mundo. Achamos a trilha que queríamos fazer e agora tudo ficou muito mais tranquilo já que tínhamos um caminho base para seguir. A distância indicada era de 18km. Teríamos um caminho longo pela frente mas animados para percorrer os passos dos incas 600 anos antes. Não só a pousada tinha quartos individuais, como também servia café da manhã, que foi bem honesto. Até fruta tinha e até eu que não sou fã de mamão acabei comendo, resultado de aprendizados da vida de viajante: nunca se sabe quando ou qual vai ser a proxima refeição, então é preciso aproveitar o que está à sua frente ao máximo. Prontos para partir, começamos caminhando pela prainha vizinha ao vilarejo. Log no início da trilha, encontramos dois outros viajantes fazendo o mesmo percurso, ao menos em partes: eles iriam do norte ao sul da ilha, enquanto nós...Próximo →Se preocupar não tá com nada21/07/26 Depois da saga do dia anterior e de ter dormido em um lugar confortavel, mesmo que só por três horas, era hora de seguir para meu destino final: Honduras. Com o dinheiro que meu broder me emprestou, chamei um indrive de dentro da casa, onde a wifi ainda pegava e segui em direção à rodoviária já que meu onibus saía as 5 da amanhã. Esse seria bem longo, chegaria só às 20h e com uma imigração no meio. Consegui dormir razoavelmente, dormindo e acordando um pouco, mas dado o cansaço já ajudou, de 5 às 9. Queria poder ter tomado um café da manhã, mas o primeiro problema do dia (sempre tem um) é que eu ja não tinha mais cordobas (moeda da Nicarágua), só o troco que sobrou do indrive e só tinha 7 dolares no bolso. Quando estava embarcando no ônibus me lembre que apenas a taxa de saída da Costa Rica foi de 13 dolares. Ainda havia a taxa de entrada no próximo país. Ou seja, muito provavelmente eu iria ficar sem dinheiro para pagar, mas pensei: qual seria o pior que poderia acontecer? Me prenderem na imigração? Não acho que isso vá acontecer. Viajar sem...