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TRAVESSIA
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DIA 24 DE 135·Isla del Sol, Bolivia·5 de junho de 2026·🌙·

Um Rolling Stone Com Ocasionais Pensamentos Aleatórios

☁️12°C
↑ 2810m
2827km do Rio
💧 88%

Dia 24 - 01/05/26

Segundo dia na ilha do sol e hoje o dia promete: vamos fazer uma trilha que dá a volta em toda a Isla Del Sol. Depois de ter ficado perdido na trilha de subida da colina em Copacabana, dessa vez baixei o app All Trails que dá acesso sem internet a trilhas pelo mundo. Achamos a trilha que queríamos fazer e agora tudo ficou muito mais tranquilo já que tínhamos um caminho base para seguir. A distância indicada era de 18km. Teríamos um caminho longo pela frente mas animados para percorrer os passos dos incas 600 anos antes.

Não só a pousada tinha quartos individuais, como também servia café da manhã, que foi bem honesto. Até fruta tinha e até eu que não sou fã de mamão acabei comendo, resultado de aprendizados da vida de viajante: nunca se sabe quando ou qual vai ser a proxima refeição, então é preciso aproveitar o que está à sua frente ao máximo.

Prontos para partir, começamos caminhando pela prainha vizinha ao vilarejo. Log no início da trilha, encontramos dois outros viajantes fazendo o mesmo percurso, ao menos em partes: eles iriam do norte ao sul da ilha, enquanto nós faríamos todo o trajeto incluindo a volta. Seguimos os quatro caminhando juntos. Os novos amigos, um da Suíça e outro da Noruega, como muitas outras pessoas ao longo do caminho foram super curiosos sobre o Brasil e fizeram várias perguntas. O norueguês até passou o carnaval no Rio. So ficou imaginando o que um sujeito tão diferente de um brasileiro médio, que mora quase na calota ártica pode ter gostado tanto de carnaval, que me parece o completo oposto da sua cultura. De qualquer forma, ele, como várias outras pessoas com quem conversei, parecem amar a nossa festa. As coincidências não pararam por aí já que o norueguês também foi do exército na Noruega e para minha surpresa o exército de lá também tem um certo aspecto de trote ou brincadeira de mal gosto nos seus treinamentos que nem o exército brasileiro, mesmo que num nível menor. Que doideira.

A caminhada em si foi bem agradável, com algumas subidas cansativas como sempre, principalmente a ~4000m de altitude, mas as vistas eram extremamente cênicas e sempre faziam o esforço valer a pena. Há um certo aspecto meio místico sobre caminhar num lugar como esses, símbolo máximo para os incas e ao mesmo tempo extremamente simples e pacato. A beleza do lugar, no entanto, não tinha nada de humilde: como uma pintura de Picasso, onde cada ângulo conta uma história diferente, aqui também, cada ângulo oferecia uma nova e bela perspectiva. Sendo assim, o tempo foi passando rápido e rápido e a caminhada não parecia cansar de tão tranquila, muitas vezes com boas conversas, outras com silêncio apreciativo do lugar. Essa talvez seja minha parte favorita das trilhas que tenho feito na viagem: estou descobrindo a ótima sensação de estar imerso na natureza enquanto deixo meus pensamentos vagarem por onde eles quiserem ir. Na vida louca que levamos no dia a dia não tenho parado tanto para pensar, pro menos não de forma inútil, no sentido de deixar minha mente ter a liberdade de ser improdutiva e somente ser. Não. Cada pensamento ou estado de espírito na vida do dia a dia, parece me ser imposto, que tenha sempre que produzir, ser otimizada, trazer algum tipo de retorno. Ter a oportunidade de pensar livremente e sem compromisso, por incrível que pareça, é um luxo.

Depois de muito andarmos e chegarmos à conclusão de que não estávamos nem ao menos na metade do trajeto, decidimos parar para um almoço e um descanso. Achamos um restaurante na beira do caminho da trilha enfeitado por um dos jardins mais bonitos, que não tenta ser extravagante nem elaborado, mas tem um charme natural sem esforço. Apoiamos nossas mochilas próximos a um cachorro que dormia de um jeito muito carismático, parecia este feliz da vida com sua vida mais que tranquila e cercada de natureza.

Fizemos nosso pedido e enquanto esperamos, começamos o carteado, como de costume. Com quatro pessoas jogando, o jogo fica até mais emocionantes. Um deles envolve memória para lembrar as cartas dos oponentes e como esse é meu ponto fraco, era sempre emocionante. Agora, precisava decorar as cartas do dobro do número de jogadores com que estava acostumado. Espero lembrar as regras quando voltar para o Brasil, quero apresentar esse jogo para todos vocês! Passamos umas boas duas horas por ali entre partidas de carteado, contemplação de vistas, contemplação de cachorros dormindo ou se enterrando na terra, papeando e comendo. Como sempre, o prato era truta, muito comum na região. depois desse bom descanso, decidimos parte para chegar enfim ao sul da ilha, que quando fizemos, o grupo se separou, já que nossos novos amigos iriam pegar de novo o barco para voltar a Copacabana, enquanto nós iríamos ao templo do sol ali pertinho e depois voltar para o norte.

Nessa ida até o templo do sol, erramos o caminho uma ou duas vezes já que essa parte não estava indicada no app e precisamos perguntar algumas vezes aos locais como chegar. Já ficamos apreensivos com a quantidade de degraus e ladeiras que precisamos descer para chegar ao templo. Isso significava que teríamos uma bela subida pela frente quando voltássemos! Finalmente chegamos ao templo, bem às beiras do lago e entramos em todas as suas salas para conhecer mais essa impressionante construção inca, que era ainda muito maior mas que acabou se perdendo com o tempo e infeliz falta de conservação por parte do governo.

Ao final da visita, Samila e eu sentamos na canga que ela estendeu para mais uma descansada e jogamos mais algumas partidas de carteado até que decidimos voltar já que tínhamos um longo caminho pela frente e queríamos evitar de pegar o resto da trilha no escuro. Arrumamos nossas coisas e partimos. O primeiro desafio foi subir as escadas do templo. Com essa altitude, subir até um lance de escada te deixa sem fôlego e cansa ainda mais as pernas. Ainda mais com os degraus gigantes e escadas íngremes que os incas gostavam de fazer esse efeito se intensifica. Vencida essa escadaria, ainda precisamos subir novamente todas as ladeiras e escadas que descemos para chegar a esse ponto, que fomos fazendo bem devagar.

A volta foi mais tranquila que a ida, com menos ganho de elevação que tivemos na ida, ou seja, menos mortos para subir, sendo majoritariamente plana ou de descida. No caminho tivemos mais momentos de conversas. Uma das que mais marcou foi sobre nós discutimos nossos filmes preferidos da Disney, o que me levou a um momento gostoso de nostalgia onde fiquei relembrando os filmes que assistia repetidamente em vhs quando era pequeno! Claro, também muitos momentos contemplativos se seguiram e a mente voou por boa parte do tempo. Eu amo esses voos porque volta e meia me ocorrem algumas ideias extremamente aleatorias: um exemplo disso, aconteceu quando numa parte da trilha onde o caminho era composto por várias pedras médias, fiquei pensando que raramente é possível saber qual delas está presa e é segura de pisar e qual está solta e pode rolar, por isso sempre é necessário testar a pisada antes de dar o passo. Nesse momento veio a sinapse inesperada: eu nunca entendi o porquê dos Rolling Stones se chamarem assim, mas o que me ocorreu nesse momento foi que enquanto a maioria das pedras do caminho é fixa, estável, segura, algumas são rebeldes e podem rolar. Essas não participam do senso comum, têm seu próprio jeito de ser e por isso rolam quando têm vontade. Talvez os membros do rolling stones só se sentissem assim: uns desajustado, do contra, anti “vida normal” e pró vida de aventuras. Eu adorei essa epifania porque como bom engenheiro está no meu sangue o prazer de deduzir coisas por conta própria. Pode nem ser esse o motivo do nome mas desse dia em diante sempre será!

Se aproximando do fim da trilha, já mais escuro nos encontramos contornando uma das montanhas por fora, por uma parte rochosa que foi um dos momentos mais bonitos da trilha, mais ou menos na hora do pôr do sol, na divisa entre a montanha e o lago, com um sol se ponto e uma floresta à nossa frente. Depois de mais alguns quilômetros por essas paisagens avistamos novamente nosso povoado imediatamente tomados por uma alegria de ter feito da telha um sucesso. Senti que vimos muito do que queríamos ver na ilha através dessa trilha e que foi também bem mais tranquila do que a trilha do dia anterior em Copacabana mesmo sendo uma trilha que no final foi de 25km e não de 18km como previsto no app (por causa dos nossos desvios para ver mais e mais coisas) e de termos passado o dia todo caminhando, umas 10h contando tudo. Quando chegamos de volta, foi só parar em algum lugar para comer, que para a minha surpresa tinha spaghetti com molho vermelho, um prato diferente e necessário depois de gastarmos energia durante todo o dia. E assim se encerrou o dia com um sentimento de missão cumprida, maior trilha da minha vida feita, grandes reflexões e papos e algumas das melhores vistas da viagem até o momento. Uma despedida da Bolívia à altura do que foi esse país cheio de gratas surpresas que certamente não esquecerei!

Link das fotos:

https://drive.google.com/drive/folders/1I_QDlLm5uNbn1pV02dYVs1j1Vw9_12YG?usp=drive_link

Dados do dia

Intensidade
7/10
Energia
80%
Tom emocional
Leve
Sono
8h

Trilha deste dia

Paint It, Black

Rolling Stones

Spotify
1592 palavras

Conversas

Carregando...

← AnteriorDesembarque na Ilha do SolDia 23 - 30/04/26 Depois do sufoco de ontem para subir a colina, hoje era dia de fazer algo que eu estava bem animado para fazer: pegar um barco até a Isla Del Sol, lugar sagrado para os incas onde se acredita que seus deuses emergiram de dentro do Lago Titica e começaram a civilizacao inca. Ou seja, o berço de uma incrível história e um lugar especial e sagrado para essa civilização. Depois de umas duas horas de barco, desembarcamos na ilha. Mesmo tomando o dramin que teoricamente não dá sono, cheguei bem cansado e sonolento ao destino. Porém, antes de pensar em tirar uma soneca, Samila e eu fomos ao nosso hostel. Ou melhor, a nossa pousada. Incrivelmente conseguimos quartos individuais por um bom preço e depois de muitos dias de hostel, foi ótimo ter um quarto só para mim. A hospedagem era bem simples, parecia quase inacabada, com várias partes de cimento e tijolos exposta, mas para minha surpresa meu quarto tinha até um aquecedor. Já Samila, não ficou tão satisfeita com seu quarto já que ele era disposto de uma forma que não tinha vista para o lago. O dono da pousada, muito gentil, ofereceu de...