O show de rock das araras vermelhas
Dia 23/07/26
Como meu tempo está bastante curto nos países da América Central (que inicialmente nem ia fazer), vou ter menos tempo do que gostaria em Copan, então esse é o único dia cheio que vou ter para aproveitar por inteiro as atrações da cidade. Minha missão hoje é conhecer as ruínas maias que existem por aqui e se der tempo, o santuário de aves.
Acordei la pelas nove manhã - queria ter acordado mais cedo, mas eu acho que as várias longas viagens que tive nos últimos dias vão pouco a pouco cobrando um preço - e fui me preparar para um dia inteiro cheio de coisas para viver. Me arrumei e saí já direto para a rua para primeiro tomar um café e depois seguir para os pontos que eu queria estar hoje.
Tomei um café reforçado para não repcisar tempo parando para almoçar porque o difícil aqui é que tudo fecha cedo, às 16h, então todas as coisas que eu queria fazer deveriam ser feitas dentro desse horário. Depois do meu cafézinho da manhã de lei, minha refeição favorita mas que tem ficado de lado ultimamente pelas muitas viagens de ônibus sem tempo para isso, acabei notando que eu não estava com boa parte do dinheiro que tinha sacado. Fui tentando refazer os passos para entender onde poderia ter deixado esse dinheiro e precisei voltar para o hostel para procurar já que o que eu tinha comigo, não seria suficiente para pagar os ingressos dos lugares que eu queria ir, o que acabou me atrasando. Ao chegar no hostel novamente, chequei o lugar onde normalmente deixo o dinheiro e não estava lá. Por uns minutos achei que alguém poderia ter pegado, mas lembrei que ontem saí com minha pochete depois de muito tempo sem usá-la e deixei o dinheiro lá. Depois do alívio de não ter perdido, voltei novamente ao centrinho da cidade para tomar um tuk tuk até as ruínas de Copan, que é um ótimo e barato meio de transporte por aqui.
Ao chegar nas ruínas fui comprar um ingresso e entender como funcionava o esquema de guias, já que esse era um passeio que eu achava importante fazer guiado para explicar as histórias e os significados de tudo que estaríamos vendo. QUando o guia falou o preço achei bem caro e conversei com ele para entender quando percebi que era o preço do tempo dele, independente do número de pessoas, então a decisão lógica foi esperar mais gente chegar para me juntar ao grupo e pagar mais barato. Por sorte, um grupo chegou poucos minutos depois e já cheguei perguntando se eu poderia me juntar e reduzir o preço para todos, o que eles aceitaram.
Depois de alguns minutos de trilha, chegamos finalmente às ruínas e a primeira vista foi algo de cair o queixo: uma visão ampla e aberta das ruínas da acrópoles, onde ficava a família real. Quando eu vi o primeiro totem de uma cabeça de jaguar fiquei super animado para ir descobrindo as histórias que a civilização maia deixou aqui. O guia explicou que a cidade maia de Copan, foi uma cidade diferente das demais porque era muito mais focada na arte, tanto que as esculturas seriam muito mais detalhadas do que as que encontraríamos no México. A comparação que ele fez foi que enquanto as cidades maias do México eram como Nova York, muito mais focadas em arquitetura e maiores, Copan era como Paris, com um alto grau artístico por todos os detalhes. Inclusive, a cabeça de Onça (que eles chama de jaguar por aqui) era muito bem esculpida e eu não podia acreditar que isso não estava em um museu mas nem a um metro de mim. A onça para os maias simbolizava o poder. No geral, esses eram povos que cultuavam muito os animais, sendo agluns notáveis a onça, as araras, que desde aquela época (400 - 900 ac) já viviam aqui e conviviam com os maias da região e a serpente. Em especial, os maias cultuavam uma serpente de duas cabeças e com penas. Para ele, elas simbolizavam uma vida longa, imortalidade e a medicina. Os maias dessa região também tinham por tradição que quando um rei morria, ele era enterrado e enterravam junto parte da cidade onde se localizava sua tumba. Ou seja, Copan, era uma cidade maia de níveis. Especificamente, havia 9 níveis, cada um para uma família real e se via isso já que certas partes do sítio eram construções a quarenta metros de altura. Construções sobre construções sobre construções. Imagina o trabalho de reconstruir uma cidade toda vez que um rei morria.
Mas nem tudo ali era original: por exemplo a grama, foi colocada por arqueólogos para que as chuvas não destruíssem o solo e essas estruturas, muito bem pensado e é algo tão cotidiano que você esperava que a mesma grama estava exatamente do mesmo jeito lá no tempo dos maias, mas na verdade, não havia nenhuma.
Outro fato para mim muito impressionante que nosso guia contou foi que muito antes mesmo dos maias, os primeiros povos que viveram aqui foram de ascendência Mongol. Ou seja, a galera veio lá da Mongólia, cruzou o que hoje é a Rússia, o estreito de Behring congelado, Alaska, Canadá e EUA e estacionou aqui, na América Central.
É muito curioso que quando se vê esses templos e cidades maias ou de outras civilizações por fotos, eu sempre imaginei que no tempo deles eram mais ou menos assim só que sem o desgaste das pedras. No entanto, nosso guia estava explicando que na verdade, todas as construções eram, pasmem, VERMELHAS! O que acontece é que o sol acaba acabando completamente com a cor das pedras durante os anos, mas em alguns trechos do sítio, há monumentos que têm um telhado em cima deles e se pode ver claramente os vestígios da tinta vermelha ou um tom rosado nas pedras! Até em um dos governantes em um totem, retratado vestindo uma pele de onça, se pode ver que a pele está pintada de amarelo e a pele da onça era cravejada de obsidiana, uma rocha negra. Ou seja, imagina quão ainda mais bonito isso era no tempo dos caras. É difícil de acreditar e realmente quando se olha o nível de artesanato ali, é algo que eu nunca vi nesse tipo de cenário: um capricho, onde tudo era talhado e pintado nos mínimos detalhes. Mas não foi sempre assim: foi um governante específico que determinou esse estilo e os artesãos da épocas deram um salto estético em comparação com o estilo anterior. Lá, havia outros totens de outros governos (foram 16 ao todo nessa região), e dá para ver uma diferença claríssima entre o nível de detalhe das obras antes e depois desse governante.
Outro fato curioso é que a floresta naturalmente engoliu parte da cidade, que está em sua maioria soterrada hoje, de forma natural nesse caso. Literalmente cresceu uma floresta em cima das áreas comuns da cidade e enquanto algumas árvores acabaram destruindo alguns telhados, as raízes delas na verdade ajudaram a preservar ainda mais as ruínas por segurarem as construções de pedra. Havia uma árvore particularmente interessante, uam das maiores que já vi, sem dúvidas, que suas raízes pareciam troncos inteiros de árvores grandes e se estendiam por muitos metros e por uma área enorme.
Nesse sítio também havia o que parecia com uma escadaria, mas era um monumento contando toda a história das famílias reais, todas as dezesseis gerações. Esse é inclusive um monumento mundial para a UNESCO, sendo o maior texto cravado em pedra no mundo, com mais de 2000 símbolos escupidos em 64 degraus. Logo ao lado dele, havia o campo de bola, onde os maias jogavam uma versão rudimentar do futebol (!!), só com ombros, quadris e joelhos. Quem perdia nesse jogo, era degolado!Eu achei que tinha visto uma das maiores árvrores que eu iria ver, mas depois disso tudo vi uma, ainda maior: o Guacanaste, árvore simbolo da Costa Rica, mas que está num sítio arqueológico em Honduras. Até tirei uma foto só para registrar o quão minúsculo eu fico perto dessa árvore.
Para fechar com chave de ouro ainda, ao ir embora fui recebido por uma guange de araras vermelhas. Mas eram muitas, mais do que dá para contar. Elas deram um show incrível, voando de árvore para árvore como quem está brincando. Ainda dei a sorte de estar lá na hora que um dos funcionários do parque veio alimentá-las. Ver as araras assim livres na natureza e há poucos metros de mim foi uma experiência realmente impagável. Esse sem dúvida foi um dos passeios mais legais que eu já fiz até agora e passei a admirar Honduras ainda mais depois dele. Além de tudo ainda fiz amizades (que renderam ótimas fotos) com as pessoas do meu grupo, algumas da Nicarágua, outras da Coreia do Sul e de Cuba. Sempre que as pessoas encontram um brasileiro, é muita resenha, o mundo todo gosta da gente.
Seguindo para a próxima parte do passeio, fui visitar as Sepulturas, essa parte já sem guia e um pouco distnate das ruínas. Achei que ia ser um mega cemitério maia, mas pelo que eu entendi, muitas das contruções ali eram moradias de famílias comuns da época. Essa parte se destacou para mim porque eu estava sozinho em todo o sítio arqueológico. Era eu, ruínas maias de milhares de anos, uma trilha na floresta para navegar entre elas e os os barulhos da natureza. Foi uma paz gigante andar por todo esse lugar.Quando estava indo embora, percebi que o dinheiro que eu tinha não seria suficiente para a entrada do Santuário das Aves/Montanha das Araras, então fui caminhando até a cidade para sacar mais um dinheiro, o que levou uma boa meia hora debaixo de um sol de respeito. Com tudo resolvido, eram já 15h30 e o santuário fechava às 16h. Já que só teria hoje para fazer esse passeio decidi ir assim mesmo e que bom que fiz isso, porque chegando lá e perguntando sobre os horários, a entrada do parque de fato fechava às 16h, mas a visita era até as 17h, então fiquei com tempo de sobra de ver tudo. O primeiro contato com o parque, confesso que foi um pouco baixo astral porque vi muitas aves presas em grades, até bem constrídas e que pareciam confortáveis para elas, mas ainda assim presas. No entanto, depois fui entendendo que esse é um lugar de recuperação das aves e de readaptação, então as aves que estão ali, em muitos casos serão reintroduzidas na natureza. Ali, eu vi de tudo, araras vermelhas, verdes e azuis, periquitos, diversos tipos de tucanos, que eu nem sabia que existiam, corujas e até um urubu que por incrpivel que pareça era lindo, bem diferente do urubu convencional. Todas as aves ali têm um cuidado muito de perto desde quando nascem, e são cuidadas com bastante atenção, até para aprenderem a voar, eles têm tipo "escolinhas de vôo" para quando elas estão prontas para isso, integração social com outras aves (um dado que me chocou foi que algumas aves são recuperadas de cativeiro e muitas vezes nunca viram nem outra ave da mesma espécie que elas, então é como se uma pessoa nunca tivesse visto outro ser humano antes na vida. É necessária uma boa fase de integração), etc. Em uma das últimas partes desse passeio em um certo local, havia muitas araras soltas pousadas em alguns galhos próximos e baixos, então eu pude ver mais de perto do que nunca todas elas e preciso falar: o barulho que elas fazem é uma coisa surpreendente, é extremamente alto, ainda mais juntando todas elas gritando ao mesmo tempo, me senti dentro de um show de rock, ou melhor, de metal pela gritaria, das araras com tanto barulho, mas foi ótimo, ter a oportunidade de estar tão de perto e ver elas soltas!
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MIENTRAS ME CURO DEL CORA
Karol G